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| Sobre o Conceito de Farmácia Integrada |
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Farmácia Integrada:
Ambiente, produtos, serviços, pessoas e atitudes coerentes com a proposta de zelar pela saúde
Por Nilce Barbosa, Presidente
do Grupo Racine
Há
exatamente oito anos incluíamos, pela primeira vez, no
temário de uma Semana Racine, a discussão sobre a
ampliação do mix de produtos da farmácia. A
programação foi elaborada em outubro de 1999 e, no
próximo ano, durante a 10ª Semana Racine, o assunto
já começaria a incomodar os farmacêuticos mais
visionários.
Com o decorrer dos anos fomos evoluindo o nosso pensar sobre que tipo
de farmácia gostaríamos de ver consolidada no Brasil.
Passamos a observar melhor os movimentos em torno da profissão
farmacêutica e do exercício profissional na
farmácia comunitária em todo o mundo e percebemos que uma
grande mudança estava em processo. Uma verdadeira crise cultural
envolvia as relações entre a sociedade e a
farmácia. O farmacêutico, como profissional da
saúde especialista no medicamento, começou a entender que
se centrar apenas na sua elaboração e
dispensação havia transformado seu papel na cadeia
sanitária ao longo do tempo, tornando-o pouco valioso, quando
não, dispensável. Paralelo a isso, começava
também a perceber que o próprio ambiente, os tipos de
produtos disponibilizados e os serviços prestados, totalmente
descaracterizados, não contribuíam para que a
população enxergasse a farmácia como
estabelecimento de saúde. A discussão do ensino
farmacêutico tornou-se inevitável se a profissão
quisesse avançar neste redesenho de sua identidade
sanitária.
Uma nova realidade centrada na promoção da saúde,
na educação sanitária e no paciente, ator ativo no
sucesso terapêutico, exigia não só um novo modelo
de profissional, mas também um novo modelo de farmácia.
Um novo conceito
Discutir este novo conceito de
farmácia não tem qualquer intenção de
apagar a realidade à nossa volta e propor, levianamente, que se
crie algo novo, sem resolver a enormidade de problemas instalados nos
diferentes modelos de estabelecimentos de dispensação
de medicamentos. O propósito, é inspirar os
profissionais farmacêuticos a projetarem sua
atuação para além do medicamento, interferindo
decisivamente na saúde coletiva. É preciso fazer mais do
que atender as pessoas, é preciso ajudá-las.
Potencializar o papel social do farmacêutico e da farmácia
como estabelecimento sanitário passa por incorporar outras
atividades dirigidas à comunidade, que não apenas as de
produzir, armazenar ou dispensar os medicamentos. Isto não
exclui a evidente importância dos medicamentos em nosso
cotidiano, pois envolve a freqüência com que os utilizamos,
os riscos a que estamos expostos quando o fazemos, seu impacto
econômico em nosso orçamento e os benefícios que
podemos ter por seu uso racional.
Não há dúvida que os farmacêuticos precisam
ser preparados inicialmente, para então mudar suas
práticas. É uma longa caminhada e muito difícil
para muitos. A dificuldade se dá por vários motivos,
entre eles a formação tecnicista e a necessidade de
percorrer os caminhos das ciências humanas e sociais, tão
desconhecidos dos farmacêuticos. Caberá a ele o
compromisso pedagógico e político de oportunizar a real
aprendizagem dos indivíduos no uso e cuidados com os
medicamentos, cujo resultado será uma sociedade que conhece
melhor o quão benéficas podem ser as atividades de uma
farmácia.
O farmacêutico deve estar preparado para não
desperdiçar outras oportunidades que, também, são
preciosas e que, muitas vezes, poderão aparecer nos momentos
mais inesperados e lhe permitirá abordar os mais diferentes
temas de saúde em uma perfeita relação com a vida
e seu cotidiano.
Através da mudança de foco, das melhorias
contínuas e do repensar sobre os possíveis
benefícios que se pode ter com esta atividade, conseguiremos
desenvolver este conceito de Farmácia Integrada, que pede menos
exibição dos medicamentos, maior variedade de outros
produtos para a saúde, menos balcões e mais mesas e
cadeiras, um uso correto do auto-serviço, mais tempo para o
atendimento, mais investimentos em estrutura física, em
qualificação contínua e em uma boa biblioteca,
além de se tornar fundamental buscar um equilíbrio entre
tecnologia e humanidade.
Assim, com o tempo, e por uma questão de semântica,
adotamos o termo Farmácia Integrada para nos referirmos a essa
farmácia, que entendemos vem atender as necessidades sociais e
sanitárias dos serviços farmacêuticos. E, como as
formas lingüísticas são símbolos e valem
pelos seus significados, é importante explicitar o que desejamos
dizer com o termo Integrada.
Farmácia integrada à cadeia sanitária e ao sistema nacional de saúde
Sabemos que saúde é uma síntese; a síntese
de uma multiplicidade de processos, do que acontece com a biologia do
nosso corpo, com o ambiente que nos rodeia, com as
relações humanas e sociais, com a economia e a
política internacional e dos países. Sabemos que vivemos
um modelo de saúde curativo e baseado na ausência de
enfermidades, que privilegia o desenvolvimento tecnológico e dos
fármacos e que conta com o apoio dos diferentes atores
participantes deste modelo, seja por inércia, ignorância
ou conveniência. Sabemos que a saúde tem quatro grandes
inimigos: a pobreza, os estilos de vida, a situação
global ambiental e a violência. Porém, mais do que tudo,
sabemos que um sistema de saúde efetivo deve concentrar-se muito
mais na prevenção de doenças e na
promoção da saúde e é neste sentido que um
estabelecimento sanitário de acesso facilitado e com alta
cobertura geográfica, como as farmácias, pode desempenhar
um papel fundamental no descongestionamento do sistema em se tratando
das questões de atenção primária à
saúde. Suas ações devem ser alinhadas e
complementares ao quadro geral de atividades e programas, sejam eles
públicos ou privados, do sistema de saúde local.
A essência da atividade da farmácia e seu papel na cadeia
sanitária é a provisão de medicamentos e outros
produtos para saúde garantindo o cuidado, a
orientação, a segurança e a
observação dos efeitos de seu uso, assumindo
responsabilidades em contribuir com a prescrição racional
e econômica, bem como com o uso adequado dos medicamentos.
Farmácia integrada ao usuário dos produtos e serviços
A preocupação primordial do farmacêutico deve ser o
bem-estar, em todas as circunstâncias, dos pacientes ou
usuários dos produtos e serviços de sua farmácia e
da comunidade onde ela está inserida. O foco de sua
atenção será sempre as necessidades assistenciais
desses indivíduos. E, para que essas necessidades sejam
atendidas, ele deve manter sempre um alto grau de compreensão e
envolvimento com o ambiente que o rodeia. Condições
sanitárias, demográficas, fatores socioeconômicos,
culturais, políticos e geográficos determinam
particularidades no perfil epidemiológico das regiões,
municípios e bairros, que por sua vez determinarão o
perfil da farmácia e as necessidades na prestação
dos serviços farmacêuticos. Alguns indicadores podem ser
observados de forma macro, porém outros têm de ser
estudados mais minuciosamente, de forma que o farmacêutico possa
estar preparado para os desafios que enfrentará. A grande
mudança no “ser farmacêutico” está em
enxergar que o medicamento é um meio e não um fim na
obtenção dos objetivos terapêuticos de qualquer
tratamento farmacológico. Para atuar desta forma o profissional
deverá desenvolver-se na prática da atenção
farmacêutica que pela Proposta de Consenso Brasileiro é
conceituada como “um modelo de prática farmacêutica
desenvolvida no contexto da assistência farmacêutica.
Compreende atitudes, valores éticos, comportamentos,
habilidades, compromissos e co-responsabilidades na
prevenção de doenças, promoção e
recuperação da saúde, de forma integrada à
equipe de saúde. É a interação direta do
farmacêutico com o usuário visando uma farmacoterapia
racional e a obtenção de resultados definidos e
mensuráveis, voltados para a melhoria da qualidade de vida. Esta
interação também deve envolver as
concepções de seus sujeitos, respeitadas as suas
especificidades bio-psico-sociais, sob a ótica da integralidade
das ações de saúde”. Para dominar uma
metodologia de acompanhamento farmacoterapêutico e ser capaz de
intervir clinicamente, subentende-se que o farmacêutico precisa
ter preparo técnico no campo da farmacologia, da semiologia, da
psicologia, das ciências sociais, da saúde coletiva, da
educação, além de excelente habilidade em
comunicação e um espírito de servir. Isto implica
em um esforço pessoal em se preparar e cientifica e humanamente,
o que entendemos talvez nem todos os farmacêuticos estejam
dispostos a fazer ou sejam talhados para isso. Mas, são atitudes
absolutamente necessárias para que suas ações
proporcionem impactos relevantes e duradouros nas
condições de saúde de uma sociedade.
Farmácia integrada à comunidade
Participar das discussões e definições das
políticas públicas de saúde em seus
municípios, faz parte das prioridades de todo farmacêutico
da farmácia comunitária. É inegável a
posição privilegiada que ele ocupa entre os profissionais
da saúde na questão do contato direto com a comunidade,
ocorrendo este sem burocracia ou custo. Deste modo, além de ser
uma riquíssima fonte de informações sobre a
comunidade, sua atuação pode contribuir de forma
única com a promoção da saúde e
prevenção de doenças, que muitas vezes
estão diretamente ligadas à educação e
às precárias condições
higiênico-sanitárias em que vivem grande parte dos
brasileiros. A falta de saneamento básico é um grave
problema econômico e de saúde no Brasil. Estima-se que 60
a 70% das internações hospitalares seja devido a
doenças causadas pela falta de água tratada, coleta e
tratamento de esgoto, doenças como diarréia, hepatite A,
febre tifóide, cólera, dengue e leptospirose. A
Organização Mundial da Saúde estima que para cada
US$ 1,00 investido em saneamento, deixe-se de gastar US$ 5,00 em
tratamento médico. Uma recente pesquisa realizada pela
Fundação Oswaldo Cruz mostra claramente o que o
avanço da atenção básica, com a
consolidação do Sistema Único de Saúde nos
anos 90 e mais recentemente com o Programa Saúde da
Família, pode interferir significativamente na
redução das internações por doenças
ligadas ao saneamento. Embora as condições
sanitárias tenham evoluído discretamente, menos pessoas
adoeceram, deixando de utilizar o sistema hospitalar. Apenas com esses
dados é possível estimar o impacto que é
possível causar a atuação das farmácias na
educação sanitária da comunidade e o valor que
elas podem agregar ao conjunto do sistema nacional de saúde, por
serem a porta de entrada e saída deste sistema. A
implementação de programas educacionais para a
promoção da saúde devem sempre incluir a
diminuição do abuso e mal uso dos medicamentos.
Vale ressaltar que a efetividade dos farmacêuticos, de
farmácia comunitária, nas ações de
saúde passam por conhecer os indivíduos a quem tratam, ou
educam, suas circunstâncias, seus saberes e suas crenças,
pois “ninguém pode cuidar da saúde de outro se este
não quiser fazê-lo por si”.
Farmácia integrada aos demais profissionais da saúde
A amplitude do serviço farmacêutico compreende o
compromisso deste profissional nas atividades que assegurem a
promoção da saúde, a prevenção de
enfermidades e a qualidade do processo de uso do medicamento,
assegurando às pessoas o melhor resultado terapêutico e
evitando os efeitos secundários adversos e desfavoráveis.
Isto pressupõe, por parte dos farmacêuticos, uma
responsabilidade compartilhada com outros profissionais da saúde
e com os pacientes pelo resultado do tratamento. Sabemos melhor do
qualquer outro profissional da área da saúde que o
medicamento é um dos pilares de qualquer terapêutica,
independente da condição de saúde que estejamos
tratando. Cada paciente em sua condição de saúde
deve ser visto como um todo pela ótica das diferentes
ciências e profissões da saúde. Esta visão
ampliada e adequada da realidade, resultará não só
em uma forma de atuação interdisciplinar como
também transdisciplinar. Como elo da cadeia sanitária
mais acessível à população, o
farmacêutico da farmácia comunitária será
sempre o reforço final aos procedimentos terapêuticos
adotados pelos demais profissionais integrantes da equipe de
saúde.
Farmácia integrada nos diferentes setores ou categorias de produtos
Além dos medicamentos, uma extensa gama de produtos deve ser
disponibilizada pelas farmácias, no sentido de atender as
necessidades de utilização, consumo e
aplicação das pessoas, visando melhorar, cuidar ou
contribuir com sua saúde, sejam elas portadoras ou não de
enfermidades. As categorias ou seções de produtos
são inúmeras e devem ser definidas após uma
análise aprofundada das características da região
onde a farmácia está estabelecida: doenças
prevalentes, idade média da população,
serviços de saúde existentes etc. Definidas as
seções ou categorias será o momento de determinar
quais produtos e em que quantidade. Produtos e seções se
integram no sentido de complementaridade da atenção ao
usuário; se a farmácia possui uma seção de
produtos para bebês e crianças, deve possuir também
os produtos para higiene bucal desta faixa etária. Do mesmo modo
que, se a farmácia disponibiliza os medidores de glicemia, com
as lancetas e tiras reagentes, deveria disponibilizar também o
arsenal de insulinas e anti-diabéticos orais.
Farmácia Integrada em seus serviços
Uma farmácia é, antes tudo, um conjunto de
serviços que devem estar também integrados, de modo a ser
apresentado à sociedade como algo de valor para o cuidado de sua
saúde.
A cadeia de serviços inicia-se ao promover acesso fácil e
seguro ao medicamento, garantindo que os estabelecimentos estejam bem
distribuídos, permitindo uma cobertura geográfica
adequada e segue com:
- A definição do mix de
produtos, a seleção de fornecedores idôneos, o
armazenamento e a dispensa correta dos produtos;
- A orientação sobre
medicamentos, sobre saúde em geral, sobre
utilização de produtos, acompanhamento
farmacoterapêutico de doentes crônicos e outros programas
de atenção farmacêutica;
- A adequação dos
horários de funcionamento às características da
região onde se encontra a farmácia e
participação no sistema de plantão;
- O fracionamento de medicamentos;
- A manipulação magistral de medicamentos;
- A administração de medicamentos injetáveis;
- A assistência farmacêutica domiciliária;
- A realização ou
participação em campanhas educativas de
informação e prevenção em saúde;
- O assessoramento aos outros
profissionais da saúde na melhoria do conhecimento dos
fármacos e sua utilização;
- A realização de estudos de utilização dos fármacos e a farmacovigilância;
- E a contribuição na formação de novos farmacêuticos com o oferecimento de estágios.
Este é um interessante exemplo de
cadeia de serviços integrada. E esses serviços devem ser
controlados por um sistema de qualidade, com procedimentos
normatizados, que possam ser medidos, avaliados e melhorados.
O conjunto de serviços oferecidos demonstrará ao
usuário o compromisso e o cuidado que a farmácia tem com
a sua saúde.
Farmácia integrada com sua equipe
Definir a identidade da farmácia significa tornar clara qual
é a sua missão, suas crenças e seus objetivos. A
formalização e estruturação destes
documentos tem um papel imprescindível na seleção
da equipe que irá atuar na farmácia. De nada
adiantará as melhores intenções do
farmacêutico se o grupo que o acompanha não estiver
alinhado com seus propósitos. Somar-se-á a isto uma
incapacidade deste mesmo grupo em dar seu contributo à
farmácia no sentido de reconhecer uma necessidade de seus
usuários ou de sua comunidade, se ele não possuir o
conhecimento das aspirações e valores que ela defende. O
desenvolvimento da equipe é de responsabilidade do
farmacêutico e este deve garantir que ela esteja preparada para
atender as necessidades de informação,
orientação e cuidados das pessoas que adentrarem à
farmácia ou com ela se relacionarem de alguma forma.
Farmácia integrada com o ensino farmacêutico
Muito se tem discutido em todo o mundo o ensino farmacêutico no
sentido de que este acompanhe as transformações e
exigências de uma sociedade complexa nas suas estruturas e
relações sociais. Participar politicamente dessas
mudanças curriculares deve fazer parte da agenda do profissional
farmacêutico da farmácia comunitária, uma vez que
com ele trabalharão os novos farmacêuticos, ao mesmo tempo
em que ele próprio deverá reciclar-se continuamente.
A transitoriedade do conhecimento, o compromisso com a
educação continuada referendada e o oferecimento de
estágios aproximam a farmácia comunitária do
ensino farmacêutico.
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