18ª Semana Racine de Atualização em Farmácia - 9 a 12 de julho de 2008
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Sobre o Conceito de Farmácia Integrada
Farmácia Integrada
Farmácia Integrada:
Ambiente, produtos, serviços, pessoas e atitudes coerentes com a proposta de zelar pela saúde
Por Nilce Barbosa, Presidente do Grupo Racine

Há exatamente oito anos incluíamos, pela primeira vez, no temário de uma Semana Racine, a discussão sobre a ampliação do mix de produtos da farmácia. A programação foi elaborada em outubro de 1999 e, no próximo ano, durante a 10ª Semana Racine, o assunto já começaria a incomodar os farmacêuticos mais visionários.

Com o decorrer dos anos fomos evoluindo o nosso pensar sobre que tipo de farmácia gostaríamos de ver consolidada no Brasil. Passamos a observar melhor os movimentos em torno da profissão farmacêutica e do exercício profissional na farmácia comunitária em todo o mundo e percebemos que uma grande mudança estava em processo. Uma verdadeira crise cultural envolvia as relações entre a sociedade e a farmácia. O farmacêutico, como profissional da saúde especialista no medicamento, começou a entender que se centrar apenas na sua elaboração e dispensação havia transformado seu papel na cadeia sanitária ao longo do tempo, tornando-o pouco valioso, quando não, dispensável. Paralelo a isso, começava também a perceber que o próprio ambiente, os tipos de produtos disponibilizados e os serviços prestados, totalmente descaracterizados, não contribuíam para que a população enxergasse a farmácia como estabelecimento de saúde. A discussão do ensino farmacêutico tornou-se inevitável se a profissão quisesse avançar neste redesenho de sua identidade sanitária.
Uma nova realidade centrada na promoção da saúde, na educação sanitária e no paciente, ator ativo no sucesso terapêutico, exigia não só um novo modelo de profissional, mas também um novo modelo de farmácia.


Um novo conceito

Discutir este novo conceito de farmácia não tem qualquer intenção de apagar a realidade à nossa volta e propor, levianamente, que se crie algo novo, sem resolver a enormidade de problemas instalados nos diferentes modelos de estabelecimentos de dispensação de  medicamentos. O propósito, é inspirar os profissionais farmacêuticos a projetarem sua atuação para além do medicamento, interferindo decisivamente na saúde coletiva. É preciso fazer mais do que atender as pessoas, é preciso ajudá-las. Potencializar o papel social do farmacêutico e da farmácia como estabelecimento sanitário passa por incorporar outras atividades dirigidas à comunidade, que não apenas as de produzir, armazenar ou dispensar os medicamentos. Isto não exclui a evidente importância dos medicamentos em nosso cotidiano, pois envolve a freqüência com que os utilizamos, os riscos a que estamos expostos quando o fazemos, seu impacto econômico em nosso orçamento e os benefícios que podemos ter por seu uso racional.

Não há dúvida que os farmacêuticos precisam ser preparados inicialmente, para então mudar suas práticas. É uma longa caminhada e muito difícil para muitos. A dificuldade se dá por vários motivos, entre eles a formação tecnicista e a necessidade de percorrer os caminhos das ciências humanas e sociais, tão desconhecidos dos farmacêuticos. Caberá a ele o compromisso pedagógico e político de oportunizar a real aprendizagem dos indivíduos no uso e cuidados com os medicamentos, cujo resultado será uma sociedade que conhece melhor o quão benéficas podem ser as atividades de uma farmácia.

O farmacêutico deve estar preparado para não desperdiçar outras oportunidades que, também, são preciosas e que, muitas vezes, poderão aparecer nos momentos mais inesperados e lhe permitirá abordar os mais diferentes temas de saúde em uma perfeita relação com a vida e seu cotidiano.

Através da mudança de foco, das melhorias contínuas e do repensar sobre os possíveis benefícios que se pode ter com esta atividade, conseguiremos desenvolver este conceito de Farmácia Integrada, que pede menos exibição dos medicamentos, maior variedade de outros produtos para a saúde, menos balcões e mais mesas e cadeiras, um uso correto do auto-serviço, mais tempo para o atendimento, mais investimentos em estrutura física, em qualificação contínua e em uma boa biblioteca, além de se tornar fundamental buscar um equilíbrio entre tecnologia e humanidade.

Assim, com o tempo, e por uma questão de semântica, adotamos o termo Farmácia Integrada para nos referirmos a essa farmácia, que entendemos vem atender as necessidades sociais e sanitárias dos serviços farmacêuticos. E, como as formas lingüísticas são símbolos e valem pelos seus significados, é importante explicitar o que desejamos dizer com o termo Integrada.

Farmácia integrada à cadeia sanitária e ao sistema nacional de saúde

Sabemos que saúde é uma síntese; a síntese de uma multiplicidade de processos, do que acontece com a biologia do nosso corpo, com o ambiente que nos rodeia, com as relações humanas e sociais, com a economia e a política internacional e dos países. Sabemos que vivemos um modelo de saúde curativo e baseado na ausência de enfermidades, que privilegia o desenvolvimento tecnológico e dos fármacos e que conta com o apoio dos diferentes atores participantes deste modelo, seja por inércia, ignorância ou conveniência. Sabemos que a saúde tem quatro grandes inimigos: a pobreza, os estilos de vida, a situação global ambiental e a violência. Porém, mais do que tudo, sabemos que um sistema de saúde efetivo deve concentrar-se muito mais na prevenção de doenças e na promoção da saúde e é neste sentido que um estabelecimento sanitário de acesso facilitado e com alta cobertura geográfica, como as farmácias, pode desempenhar um papel fundamental no descongestionamento do sistema em se tratando das questões de atenção primária à saúde. Suas ações devem ser alinhadas e complementares ao quadro geral de atividades e programas, sejam eles públicos ou privados, do sistema de saúde local.

A essência da atividade da farmácia e seu papel na cadeia sanitária é a provisão de medicamentos e outros produtos para saúde garantindo o cuidado, a orientação, a segurança e a observação dos efeitos de seu uso, assumindo responsabilidades em contribuir com a prescrição racional e econômica, bem como com o uso adequado dos medicamentos.

Farmácia integrada ao usuário dos produtos e serviços

A preocupação primordial do farmacêutico deve ser o bem-estar, em todas as circunstâncias, dos pacientes ou usuários dos produtos e serviços de sua farmácia e da comunidade onde ela está inserida. O foco de sua atenção será sempre as necessidades assistenciais desses indivíduos. E, para que essas necessidades sejam atendidas, ele deve manter sempre um alto grau de compreensão e envolvimento com o ambiente que o rodeia. Condições sanitárias, demográficas, fatores socioeconômicos, culturais, políticos e geográficos determinam particularidades no perfil epidemiológico das regiões, municípios e bairros, que por sua vez determinarão o perfil da farmácia e as necessidades na prestação dos serviços farmacêuticos. Alguns indicadores podem ser observados de forma macro, porém outros têm de ser estudados mais minuciosamente, de forma que o farmacêutico possa estar preparado para os desafios que enfrentará. A grande mudança no “ser farmacêutico” está em enxergar que o medicamento é um meio e não um fim na obtenção dos objetivos terapêuticos de qualquer tratamento farmacológico. Para atuar desta forma o profissional deverá desenvolver-se na prática da atenção farmacêutica que pela Proposta de Consenso Brasileiro é conceituada como “um modelo de prática farmacêutica desenvolvida no contexto da assistência farmacêutica. Compreende atitudes, valores éticos, comportamentos, habilidades, compromissos e co-responsabilidades na prevenção de doenças, promoção e recuperação da saúde, de forma integrada à equipe de saúde. É a interação direta do farmacêutico com o usuário visando uma farmacoterapia racional e a obtenção de resultados definidos e mensuráveis, voltados para a melhoria da qualidade de vida. Esta interação também deve envolver as concepções de seus sujeitos, respeitadas as suas especificidades bio-psico-sociais, sob a ótica da integralidade das ações de saúde”. Para dominar uma metodologia de acompanhamento farmacoterapêutico e ser capaz de intervir clinicamente, subentende-se que o farmacêutico precisa ter preparo técnico no campo da farmacologia, da semiologia, da psicologia, das ciências sociais, da saúde coletiva, da educação, além de excelente habilidade em comunicação e um espírito de servir. Isto implica em um esforço pessoal em se preparar e cientifica e humanamente, o que entendemos talvez nem todos os farmacêuticos estejam dispostos a fazer ou sejam talhados para isso. Mas, são atitudes absolutamente necessárias para que suas ações proporcionem impactos relevantes e duradouros nas condições de saúde de uma sociedade.

Farmácia integrada à comunidade

Participar das discussões e definições das políticas públicas de saúde em seus municípios, faz parte das prioridades de todo farmacêutico da farmácia comunitária. É inegável a posição privilegiada que ele ocupa entre os profissionais da saúde na questão do contato direto com a comunidade, ocorrendo este sem burocracia ou custo. Deste modo, além de ser uma riquíssima fonte de informações sobre a comunidade, sua atuação pode contribuir de forma única com a promoção da saúde e prevenção de doenças, que muitas vezes estão diretamente ligadas à educação e às precárias condições higiênico-sanitárias em que vivem grande parte dos brasileiros. A falta de saneamento básico é um grave problema econômico e de saúde no Brasil. Estima-se que 60 a 70% das internações hospitalares seja devido a doenças causadas pela falta de água tratada, coleta e tratamento de esgoto, doenças como diarréia, hepatite A, febre tifóide, cólera, dengue e leptospirose. A Organização Mundial da Saúde estima que para cada US$ 1,00 investido em saneamento, deixe-se de gastar US$ 5,00 em tratamento médico. Uma recente pesquisa realizada pela Fundação Oswaldo Cruz mostra claramente o que o avanço da atenção básica, com a consolidação do Sistema Único de Saúde nos anos 90 e mais recentemente com o Programa Saúde da Família, pode interferir significativamente na redução das internações por doenças ligadas ao saneamento. Embora as condições sanitárias tenham evoluído discretamente, menos pessoas adoeceram, deixando de utilizar o sistema hospitalar. Apenas com esses dados é possível estimar o impacto que é possível causar a atuação das farmácias na educação sanitária da comunidade e o valor que elas podem agregar ao conjunto do sistema nacional de saúde, por serem a porta de entrada e saída deste sistema. A implementação de programas educacionais para a promoção da saúde devem sempre incluir a diminuição do abuso e mal uso dos medicamentos.

Vale ressaltar que a efetividade dos farmacêuticos, de farmácia comunitária, nas ações de saúde passam por conhecer os indivíduos a quem tratam, ou educam, suas circunstâncias, seus saberes e suas crenças, pois “ninguém pode cuidar da saúde de outro se este não quiser fazê-lo por si”.

Farmácia integrada aos demais profissionais da saúde

A amplitude do serviço farmacêutico compreende o compromisso deste profissional nas atividades que assegurem a promoção da saúde, a prevenção de enfermidades e a qualidade do processo de uso do medicamento, assegurando às pessoas o melhor resultado terapêutico e evitando os efeitos secundários adversos e desfavoráveis. Isto pressupõe, por parte dos farmacêuticos, uma responsabilidade compartilhada com outros profissionais da saúde e com os pacientes pelo resultado do tratamento. Sabemos melhor do qualquer outro profissional da área da saúde que o medicamento é um dos pilares de qualquer terapêutica, independente da condição de saúde que estejamos tratando. Cada paciente em sua condição de saúde deve ser visto como um todo pela ótica das diferentes ciências e profissões da saúde. Esta visão ampliada e adequada da realidade, resultará não só em uma forma de atuação interdisciplinar como também transdisciplinar. Como elo da cadeia sanitária mais acessível à população, o farmacêutico da farmácia comunitária será sempre o reforço final aos procedimentos terapêuticos adotados pelos demais profissionais integrantes da equipe de saúde.

Farmácia integrada nos diferentes setores ou categorias de produtos

Além dos medicamentos, uma extensa gama de produtos deve ser disponibilizada pelas farmácias, no sentido de atender as necessidades de utilização, consumo e aplicação das pessoas, visando melhorar, cuidar ou contribuir com sua saúde, sejam elas portadoras ou não de enfermidades. As categorias ou seções de produtos são inúmeras e devem ser definidas após uma análise aprofundada das características da região onde a farmácia está estabelecida: doenças prevalentes, idade média da população, serviços de saúde existentes etc. Definidas as seções ou categorias será o momento de determinar quais produtos e em que quantidade. Produtos e seções se integram no sentido de complementaridade da atenção ao usuário; se a farmácia possui uma seção de produtos para bebês e crianças, deve possuir também os produtos para higiene bucal desta faixa etária. Do mesmo modo que, se a farmácia disponibiliza os medidores de glicemia, com as lancetas e tiras reagentes, deveria disponibilizar também o arsenal de insulinas e anti-diabéticos orais.

Farmácia Integrada em seus serviços

Uma farmácia é, antes tudo, um conjunto de serviços que devem estar também integrados, de modo a ser apresentado à sociedade como algo de valor para o cuidado de sua saúde.

A cadeia de serviços inicia-se ao promover acesso fácil e seguro ao medicamento, garantindo que os estabelecimentos estejam bem distribuídos, permitindo uma cobertura geográfica adequada e segue com: 
  • A definição do mix de produtos, a seleção de fornecedores idôneos, o armazenamento e a dispensa correta dos produtos;
  • A orientação sobre medicamentos, sobre saúde em geral, sobre utilização de produtos, acompanhamento farmacoterapêutico de doentes crônicos e outros programas de atenção farmacêutica;
  • A adequação dos horários de funcionamento às características da região onde se encontra a farmácia e participação no sistema de plantão;
  • O fracionamento de medicamentos;
  • A manipulação magistral de medicamentos;
  • A administração de medicamentos injetáveis;
  • A assistência farmacêutica domiciliária;
  • A realização ou participação em campanhas educativas de informação e prevenção em saúde;
  • O assessoramento aos outros profissionais da saúde na melhoria do conhecimento dos fármacos e sua utilização;
  • A realização de estudos de utilização dos fármacos e a farmacovigilância;
  • E a contribuição na formação de novos farmacêuticos com o oferecimento de estágios.
Este é um interessante exemplo de cadeia de serviços integrada. E esses serviços devem ser controlados por um sistema de qualidade, com procedimentos normatizados, que possam ser medidos, avaliados e melhorados.

O conjunto de serviços oferecidos demonstrará ao usuário o compromisso e o cuidado que a farmácia tem com a sua saúde.

Farmácia integrada com sua equipe

Definir a identidade da farmácia significa tornar clara qual é a sua missão, suas crenças e seus objetivos. A formalização e estruturação destes documentos tem um papel imprescindível na seleção da equipe que irá atuar na farmácia. De nada adiantará as melhores intenções do farmacêutico se o grupo que o acompanha não estiver alinhado com seus propósitos. Somar-se-á a isto uma incapacidade deste mesmo grupo em dar seu contributo à farmácia no sentido de reconhecer uma necessidade de seus usuários ou de sua comunidade, se ele não possuir o conhecimento das aspirações e valores que ela defende. O desenvolvimento da equipe é de responsabilidade do farmacêutico e este deve garantir que ela esteja preparada para atender as necessidades de informação, orientação e cuidados das pessoas que adentrarem à farmácia ou com ela se relacionarem de alguma forma.

Farmácia integrada com o ensino farmacêutico

Muito se tem discutido em todo o mundo o ensino farmacêutico no sentido de que este acompanhe as transformações e exigências de uma sociedade complexa nas suas estruturas e relações sociais. Participar politicamente dessas mudanças curriculares deve fazer parte da agenda do profissional farmacêutico da farmácia comunitária, uma vez que com ele trabalharão os novos farmacêuticos, ao mesmo tempo em que ele próprio deverá reciclar-se  continuamente.

A transitoriedade do conhecimento, o compromisso com a educação continuada referendada e o oferecimento de estágios aproximam a farmácia comunitária do ensino farmacêutico.


 
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